Mangia che te fa bene!

Aprendi a fazer pão com as italianas da minha família. Observá-las era bem divertido, especialmente no momento de sovar a massa. Nós crianças ríamos muito, imitávamos e algumas vezes nos deixavam mexer na mistura crua. Tudo com muita parcimônia para evitar desperdício. Muito cedo aprendi a ter respeito com o alimento. Principalmente com o pão nosso de cada dia!

Até hoje o ato de fazer pão me remete a esta festança na cozinha, mesmo que eu esteja sozinha. Parece que de algum canto elas, as italianas, estão a me observar, me orientando orgulhosas.

Fazia tempo que eu não fazia pão. Ontem, eu fiz.

Sem batedeira elétrica, sem qualquer outro tipo de artifício, apenas com as minhas mãos, repetindo o ritual milenar. Hoje é minha filha quem se diverte me assistindo na cozinha. E, exatamente como eu e as outras crianças, ela sempre pede para pôr a mão na massa.

Aproveitei umas sobrinhas de abóbora que estavam na geladeira, acrescentei gergelim, um pouco de linhaça e pronto. O jantar foi enriquecido com o pão quentinho, recém-saído do forno. Mais caseiro impossível!

Nem vi o tempo passar. Na realidade, quando estou numa cozinha, não vejo o tempo passar. Eu adoro uma cozinha. Na cozinha sinto-me à vontade. Pronta para um bate-papo. Adoro os aromas, as cores, os cheiros, a fumacinha saindo das panelas. Isso tudo tem a ver com alquimia…

Enquanto cozinho, fico muito concentrada acompanhando e respeitando os tempos de cozimento dos alimentos, que são diferentes. Uns guardam mais sabor quando são preparados rapidamente; outros necessitam de horas no fogo, o que inunda a casa com aquele cheirinho que atrai todo mundo para a beira do fogão.

Acho muito gostosa a movimentação entre fogão, pia, geladeira. É uma bela coreografia. Mexer a comida na panela. Provar. Sentir o gosto. Esperar o sabor espalhar-se pela boca. Decidir se carece de mais uma pitada de algum tempero.

Nada mais feminino do que se ocupar do nutrir. E, como todas as coisas do feminino não estão sendo lá muito valorizadas nos últimos tempos, preocupar-se com a alimentação parece bem fora de moda. Ocupar-se do nutrir, então… pode até soar meio esquisito.

Aqui preciso fazer um parêntesis, para que fique bem explicado o que entendo quando digo “feminino”. Não quero dizer, a rigor, mulher. Refiro-me a acolhimento, ternura, cuidado, capricho, paciência, sensibilidade. Sensações que podem (e devem!) ser experimentadas por homens e mulheres. Noto que quando nos dispomos a cozinhar, muitas vezes somos mobilizados por estas sensações. Traduzo “ocupar-se do nutrir” como ocupar-se do alimento primordial, alimento que nutre o espírito, a alma. Por outro lado, uma atitude masculina (igualmente presente em homens e mulheres) é aquela focada, objetiva, bem explicada, regrada, estratégica, calculada. Na cozinha é necessário um certo despojamento. Como explicar objetivamente, por exemplo, uma “calda em ponto de fio”? Ou então, como estabelecer o tempo exato de espera para que a massa do pão cresça ? Impossível. E é aí que entram as características do “reino do feminino”: observar, esperar, arriscar…

Digo cozinhar mesmo. Não ligar o microondas.

E não vamos confundir “pensar em alimentação” com procurar produtos de baixas calorias. Noto que estamos cada vez mais consumindo produtos alimentícios, e menos alimentos.

Alimentos são aqueles encontrados na natureza, aqueles que estão nas feiras, que não precisam de embalagem, que não duram meses. Precisam ser lavados, descascados, manuseados com delicadeza, têm cheiro de terra, têm cheiro de infância. Não contêm conservantes. Nem corantes. Sem a maquiagem de produtos que realçam cor, sabor ou o que quer que seja. Não são uniformes. Pelo contrário, bem desiguais em tamanho, forma, cor, cheiro. Quem consegue um maracujá idêntico ao outro?

Cozinhar, para alguns é sinônimo de submissão. Para mim é exatamente o oposto. Poder fazer minha comida é sinônimo de liberdade, independência e auto-suficiência. Escolher o que eu quero comer, com o sabor dos temperos que mais me agradam, sem ter que pedir ou pagar por isso é sensacional. E liberdade, independência e auto-suficiência foram grandes incentivos ao meu aprendizado da arte culinária, diga-se de passagem.

Já cozinhei mais. E melhor.

Hoje em dia me ocupo das refeições dos domingos.

Almoço de domingo, principalmente para quem é caipira e descendente de italianos, é também um ritual.

Mas voltarei a este tema em outra ocasião.

Pense um pouco e veja como tem sido sua alimentação. Hoje, o que você comeu? Quantas embalagens você abriu? Do que foi ingerido, o que foi comprado diretamente na horta ou na feira? O que, de verdade, pode ser chamado de alimento?

Sei que nos colocaram, e nos colocamos, num tipo de esquema que quase não nos permite um cuidado real com tudo o que de mais importante para nossa saúde, física e emocional, se realize. Mesmo assim, temos de encarar a nossa alimentação com outro olhar. E isso se faz urgente. Precisamos voltar a comer direito, como entendiam nossos antepassados.

Ontem, ao retirar o pão do forno, notei que a antiga receita, herdada da minha família, tinha sido atualizada por mim. Misturar gergelim, restinhos de abóbora e linhaça foi por conta da minha criatividade audaciosa. E, olha, modéstia à parte, ficou uma delícia!