No ano que vem tem mais
Folha de S. Paulo – 03/01/2010
Eliane Cantanhede


Ok, o Brasil não tem tsunami, terremoto, furacão ou nevasca. Mas tem o flagelo da seca e a tragédia das chuvas que devastam e matam. A diferença é que a seca mata de geração em geração, lentamente, dia após dia, longe das redes de TV e da grande imprensa, enquanto as chuvas matam de repente, sorrateiramente, diante das câmeras, das fotos e dos repórteres. A seca do Nordeste empurra os filhos do Brasil para o Sul maravilha. E as chuvas no Sul maravilha fazem o Brasil inteiro chorar.
A virada de 2009 para 2010 no Brasil inunda as redes mundiais de notícias e confronta as realidades dos dois Brasis: o do esplendoroso espetáculo dos fogos do Réveillon em Copacabana e o que sucumbe à lama, à falta de planejamento e à ocupação irregular de encostas.
O contraste vai para as telas e para as páginas, alternando ora pessoas de todas as idades, felizes e em festa, ora as que choram a perda de filhos, mulheres, maridos, pais, mães, amores, não raro famílias inteiras. Ou que, simplesmente, perderam suas casas e todos os seus pertences sob a força da água.
Sem emprego e sem os dentes da frente, um homem ainda jovem olha para a câmera e declara, em choque: “Perdi tudo, até o que nem acabei de pagar”. Ele teve sorte.
Há meia centena de mortos só no Rio, seja em bairros pobres, seja na paradisíaca Angra dos Reis, deixando como mártir da virada do ano a menininha Mariana, de três anos, que passou horas soterrada, foi retirada sob o uivo doído e comovente de um bombeiro e acabou morrendo no hospital.
Tragédias assim têm causas naturais, sim, mas têm também a enorme responsabilidade do poder público e o empurrão da imprevidência, da ganância ou da simples ignorância. E deixam um grito e um eco: prevenir, prevenir, prevenir. Porque, no que vem, tem mais.
PS – Onde estava Sérgio Cabral?
O candidato de fato à reeleição é o vice, Luiz Fernando Pezão?

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